segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Já há vídeo...

O Correio da Manhã felizmente antecipou-se e fez um vídeo. Vejam sff o link da notícia: aqui.

Nós passamos por isto todos os dias. São apenas uns minutos que se vêem. Nós acordamos todos os dias sabendo que vamos para este inferno, sobretudo quando se trata dos famosos cursos EFA.

Gostávamos de ir para outra profissão, é claro, mas quando iniciámos esta ninguém nos disse que era para sermos sujeitos a esta tortura e às acusações de milhões de treinadores de bancada que acham que chegavam lá e os meninos se calavam logo.

Não nos disseram que iríamos ser alvo de uma campanha liderada por uma Ministra da Educação que virou o País contra nós. E agora, quando temos 40 ou 50 ou 60 nos, não estamos em condições de ir assentar tijolo, ainda para mais quando se sofre das costas, como eu.

Transcrevo a seguir o post de Paulo Guinote intitulado...


«Má Sorte A Minha…

… não ter a boa sorte deste colega.

Ao longo destes 20 anos, mais coisa, menos coisa, tive de enfrentar várias (muitas?) situações de indisciplina. Não tanto nos primeiros anos em que leccionei Secundário ou 3º CEB, mas bem mais quando passei a leccionar no 2º CEB.

Verdade se diga que há muitos anos, mais de uma década, tenho leccionado turmas complicadas, tanto pelo contexto, quanto por ser voluntário para trabalhar com turmas destas.

E tive de passar por muita coisa e ainda passo. Ossos do ofício, mas por vezes mais do que isso.

É verdade que melhora quando ficamos uns anos na mesma escola, ou quando o 1º período se vai estendendo. Passam a conhecer-nos e a respeitar-nos. Ou não. Mas quase sempre há uma avaliação globalmente correcta do que andamos por ali a fazer. Mas que custa a conquistar.

Mas a indisciplina, se não faz parte do meu quotidiano diário, nunca está assim tão distante, ou pelo menos o seu risco. Na sala de aula, a caminho dela ou no regresso. Porque a indisciplina para mim não se resume às quatro paredes da sala de aula e alastra ao respeito que é devido por todos a todos no espaço escolar. E os meus ouvidos estão sempre ligados, bem como, apesar da miopia, não tenho estrabismo e não estou sempre a olhar para o outro lado.

Penso que nunca tive uma aula caótica, mas já passei por momentos pré-caóticos. O segredo não está em não os ter, está em conseguir lidar, caso a caso, com o que nos aparece, avaliar em centésimos de segundo, uma situação e agir ou esperar um pouco. E, agindo, como agir. É um ofício de risco. Sempre com escassa margem para o erro.

O que fazer quando um(a) aluno(a) de 10 anos, na hora de troca de professor, olha para fora quando a porta se abre e diz olha ali a professora XYZ morta! e se ri para a turma, nos limites da capacidade de tolerarmos a infanto-alarvidade (e não há que ceder ao discurso politicamente correcto!).

O que fazer quando somos obrigados a lidar, sem prévio aviso, com interpelações públicas de familiares de alunos que, sem qualquer fundamento e contra todas as evidências demonstradas, insistem em ameaçar que um dia voltam à escola para bater em muita gente e não é só nos pequenos?

Como aprendemos a lidar com isto?

Como conseguimos, dia após dia, semana após semana, mês após mês, etc, etc, a avaliar as situações e (re)agir sem cairmos no desvario?

É este terreno complicado, lamacento, pantanoso, que somos obrigados a atravessar no nosso quotidiano, em especial quando não nos instalamos em nichos protegidos.

Perante dezenas de olhares, avaliações, juízos. Centenas, com a ampliação familiar. Diariamente.

Quando estamos lá… e não viramos a cara e agimos como gostaríamos que agissem nas escolas e corredores por onde passam as nossas crianças.

Porque não me parece curial reclamar para os nossos, aquilo que não garantimos aos dos outros.

Mesmo que por vezes se faça isso perante incompreensões, sobrolhos franzidos, conselhos para não me irritar que é mais seguro, saindo da zona de conforto da dormência que vai cobrindo muitas consciências cansadas.

Resistir a certas insanidades quotidianas é ainda mais difícil quando não existe rectaguarda que apoie quem ainda se preocupa. E isso faz quebrar muita gente. E eu entendo.

Nesse aspecto continuo um afortunado. E espero continuar. É a única forma de continuarmos… Esperar que não fiquemos sós. Que se mantenham laços mínimos de solidariedade e lealdade, que não de encobrimento.

A menos que, caso a corrosão atinja níveis inesperados, consigamos abstrair-nos e manter um rumo. Mas não é fácil.

Pois… voltando ao princípio. Má sorte minha a de não ser possível dizer que nunca enfrentei situações de indisciplina. Mas boa sorte quase todas terem tido desfecho a contento. Ou mesmo todas. Até ver.

Mas as probabilidades, com o tempo, encurtam. E os tempos andam ásperos e acelerados.»

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