sexta-feira, 9 de setembro de 2011

"Nuno Crato não sabe o que é uma escola"



Santana Castilho
"Nuno Crato não sabe o que é uma escola"


Professor defende que o ministro da Educação começou “o reinado como um autêntico palhaço da avaliação do desempenho” dos professores e fala em impreparação
.


Por:Janete Frazão / João Pereira Coutinho


Correio da Manhã - Foi convidado por Pedro Passos Coelho para ministro da Educação?

Santana Castilho - Não, não fui convidado para ser ministro.

- Mas esperava ser convidado?


- Se tivesse surgido, seria a consequência - porque não dizer, com honestidade - de um trabalho [colaboração no programa eleitoral do PSD] e de diálogos, dos quais poderia retirar que essa era uma probabilidade.

- Está satisfeito ou desiludido com a actuação do Governo?

- Profundamente desiludido.

- Porquê?


- Porque me parece evidente que se trata de um Governo genericamente impreparado, designadamente o primeiro-ministro, que revela essa impreparação.

- Além da eventual impreparação, pode haver situações não previstas que alteram as intenções iniciais...

- É evidente que pode pôr em causa, mas também é evidente que, observando aquilo que é feito, vê-se que não há preparação. Veja do ponto de vista económico. O que é que foi dito? Que não iam aumentar impostos. Um político não pode fazer afirmações da maneira assertiva que Pedro Passos Coelho fez sem conhecer a realidade.

- Nuno Crato está à altura do cargo de ministro da Educação?


- Não, não está. Demonstrou já não ter reflexão e conhecimento dos problemas que se põem ao sistema educativo no terreno.

- É capaz de dar exemplos?

- O velho problema da avaliação do desempenho dos professores. O que é que ele fez? Por não ter nada pensado, e com a gravidade de ser econometrista e de querer resumir os problemas da Educação a problemas de medição, fez exactamente aquilo que o primeiro-ministro se tinha comprometido a não fazer, numa das cambalhotas e numa das manifestações de desonestidade política mais evidentes.

- Antes de ser Governo, o PSD comprometeu-se, de facto, com uma ruptura com o modelo de avaliação. Não o fez. Como avalia a última proposta apresentada aos sindicatos?

- O modelo é tecnicamente miserável, e, do ponto de vista humano, é kafkiano e monstruoso. É a terceira versão do modelo Maria de Lurdes Rodrigues. Este modelo incendiou as escolas, adulterou aquilo que deve ser a essência de uma escola, que é um trabalho cooperativo entre os professores.

- Qual seria o modelo ideal?

- Aquele que não seja universal, que seja construído pelas pessoas que vão sofrer as consequências da sua aplicação e respeita a autonomia das escolas.

- Teria sido preferível suspender a avaliação e preparar um modelo melhorado para o ano?

- Nuno Crato não sabe o que é uma escola, não conhece a realidade do sistema educativo. Se conhecesse, faria aquilo que qualquer pessoa sensata faria: suspender. Qual a coerência disto? É rude o que estou a dizer, a linguagem é metafórica, mas ele próprio põe o nariz, veste o fato e começa o reinado como um autêntico palhaço da avaliação do desempenho.

- Como explica os maus resultados nos exames nacionais?

- Não sei responder. É evidente que há variáveis. Os exames flutuam ao sabor de critérios, tempos, metodologias. Flutua também a qualidade dos professores, o ambiente. Não imaginam o que é hoje a vida na escola. A actividade dos professores é marcada por burocracias administrativas absolutamente ridículas.

- Alguns dos pontos que refere são prioridade do actual ministro...

- Uma coisa é falarmos no plano inclinado, outra coisa é actuarmos. Isso são tretas. Nuno Crato não fez nada disso. Também disse que já não fechavam escolas e, passado pouco tempo, eram duzentas e tal.

- Extinguiu direcções regionais.

- Não é verdade. Anunciou a extinção para daqui a um ano, nomeando nesse dia nove directores regionais e mantendo a estrutura como estava.

- O Governo prevê poupar, em 2012, 506,7 milhões de euros na Educação. A qualidade do ensino sairá prejudicada?

- Obviamente, mas sairá mais prejudicada pela incompetência das pessoas que dirigem a política de ensino. O corte não é iniciativa do Governo, é imposto pela troika. Agora, era dispensável esta subserviência do primeiro-ministro, que passa a vida a agradecer a ajuda que a Europa nos deu, quando está a falar de um negócio em que os prestamistas ganham imenso dinheiro.

- Gostava que o Governo lhe explicasse o que vai fazer com o Novas Oportunidades?

- Gostava. O programa é uma farsa total. Num quadro de dificuldades, é evidente que prefiro ter dinheiro para a educação básica de uma criança a ter dinheiro para dar uma segunda oportunidade aos adultos.

"PEDRO PASSOS COELHO CHEGOU AO GOVERNO SEM IDEIAS DEFINIDAS"

CM - Além da suspensão do modelo de avaliação de professores, sugeriu outros nove princípios orientadores da Educação a Passos Coelho. Foram todos ignorados?


SC - Genericamente, sim. Estão publicados. Se vir a proposta do PSD apresentada na Assembleia da República, no livro que escrevi com a incumbência de Pedro Passos Coelho...

- E já falou com Pedro Passos Coelho depois de tomar posse?

- Não. A última vez que falei com ele foi no dia em que ele publicamente se comprometeu, sem nenhum pedido feito por mim... aliás, posso contar-lhe a história...

- Se fizer favor.

- Dois dias antes da divulgação do programa eleitoral, falei com Pedro Passos Coelho pelo telefone e manifestei a minha perplexidade por nada do programa de coordenação, para o qual me tinha sido pedida ajuda, ter sido feito. E, na véspera de o programa ser anunciado publicamente, era uma e tal da manhã, recebi, enviado do iPad de Passos Coelho, com pedidos de desculpa, o programa. Quando o leio, vejo que na parte da Educação, tirando três ou quatro frases plagiadas sem autorização e grosseiramente copiadas, não era nada daquilo que eu tinha proposto.

- E não questionou o que se tinha passado?

- Obviamente. Telefonei imediatamente e perguntei o que era aquilo. Do outro lado, obtive silêncio. Depois, perguntou-me sobre a disponibilidade para melhorá-lo. Disse que era total.

- Mas se o programa era incompatível com aquilo que defendia, o que ainda havia a resolver?

- Há aqui alguma coisa que não conheço, é saber porque é que Pedro Passos Coelho andou durante quase um ano a falar comigo, concordando com tudo o que lhe ia propondo, e depois aparece um programa que não tem nada a ver com aquilo com que concordámos. Este é um mistério para mim.

- Tem ideia do que se possa ter passado?

- Para mim, tem uma explicação que não posso tornar pública porque não posso provar.

- Alguém já se teria comprometido com Nuno Crato?

-Não sei. Ou melhor, aquilo que sei não é passível de ser provado.

- Crê que essa mudança foi de Pedro Passos Coelho e apenas de Pedro Passos Coelho?

- Penso que Pedro Passos Coelho chegou ao Governo sem ter ideias definidas sobre muita coisa. E penso que tem uma razoável impreparação para desempenhar o cargo que está a desempenhar. E que vai fazendo uma navegação à bolina, tentando conciliar pressões que, naturalmente, sofrerá.

PERFIL

Santana Castilho nasceu em Beja, em 1944. É professor coordenador na Escola Superior de Educação de Santarém, que fundou. Foi subsecretário de Estado dos Assuntos Pedagógicos e subsecretário de Estado Adjunto do Ministro da Educação e Universidades no governo liderado por Pinto Balsemão.

Sem comentários:

Enviar um comentário