segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Como Foi Possível?"


O romance Ilusão ou o Que Quiserem de Luísa Costa Gomes, professora que em boa hora deixou o Ensino, recebeu o prémio Fernando Namora/Estoril Sol. O júri destacou, entre outros aspectos, o seu "ágil registo estilístico de constante ironia, quer pela análise penetrante de alguns comportamentos tipo da actual sociedade portuguesa, muito em especial no tocante a métodos pedagógicos aplicados nas escolas".

Digo que deixou o Ensino em boa hora porque o Ensino actual merece que TODOS os professores o abandonem. É que um dia olharemos para trás e perguntaremos como foi possível aguentarmos o caos, a violência, a loucura que o Eduquês implantou nas escolas. Um dia olharemos para trás e sentiremos vergonha das centena de horas em acções de formação, a atirar novelos de lãs uns aos outros e a fazer o exercício de "caír para trás", pela enésima vez, sob o olhar esgazeado e o sorriso imbecil da eduquesa ou do eduquês cor-de-rosa de serviço.

Luisa Costa Gomes já olha. E eu adorava ver a cara do irmão do Sampaio, do, do Stretch e dos outros esgazeados de sorriso imbecil os pais da coisa...

"Durante toda a semana a Teresesinha veio pouco a casa. Quando por fim lhe perguntei pelo trabalho, disse-me naquele tom didáctico dos momentos pré-colapso em princípio teríamos de nos mudar para mais perto da Jessica, porque era muito desgastante segui-la de tão longe sem uma base doméstica. Estava agora firmemente convencida de que para a Jessica ter sucesso era preciso que todo o contexto familiar fosse educado, porque a escola nada pode quando não há transmissão dos valores fundamentais do humanismo, nem sentido crítico na avaliação das mensagens dos média (...).

O projecto de Teresesinha era elevar a família de Jessica em peso (mãe e cinco meios-irmãos, um de cada pai), à fruição estética e morfolinguística. Queria propor-lhe uma ida ao teatro e contava comigo para fornecer o espectáculo. «Educação pela Arte», disse ela, de forma significativa. «Mas nós nem sabemos ainda o que fazer a seguir», disse eu. Era incomensurável o que se jogava na primeira experiência cultural daqueles desfavorecidos. «Que fazer?», perguntou-me. «Vamos devagar» aconselhei. «Começas por uma ida ao cinema, vais com eles ver um filme menos javardo, depois discutem, fazem um passeio à Expo, visitam uma coisa de banda desenhada e vais subindo por aí acima, aumentando o grau de complexidade e...» «Mas contextualizando sempre», disse ela. «Sempre», disse eu e lá mais para o fim do ano escolar, quando os sentires bem motivados e com bom olho para os contextos, vais com eles a um Museu.». Ela ponderou a hipótese. «Se for entrada livre, ainda se pode pensar nisso.» E teorizou. «As pessoas sentem-se muito descontextualizadas. Vêem, mas não sabem o que estão a ver. Como não sabem, não gostam. E depois não querem ver mais.» «A resposta é a integração», rematei. Não queria parecer pouco entusiasmada. «Como é possível eles aprenderem o que quer que seja se deixarem as raízes para trás?» Não lhe quis dizer que em princípio todos nós deixamos as nossas raízes para trás. «É uma família muito desestruturada, muito carenciada, a de Jessica. Como é que ela pode aprender o que quer que seja se não está integrada numa cultura? É óbvio que tem de haver programas específicos para estas pessoas!» Matemática para Pobres, Geografia para Refugiados, Biologia para Minorias», disse eu."

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