segunda-feira, 16 de março de 2009

Segunda-Feira, 16 de Março

Nesta segunda-feira apresentei-me ao serviço às 8.15 horas, como sempre, e com a esperança sincera de não ter que escrever nada na entrada de hoje. É todos os dias a mesma coisa. Todos os dias eu desejo que seja um dia sem "casos". Não foi:

- 10.3o horas - Duas alunas entram na sala aos gritos, numa discussão do tipo Morangos com Açúcar, teatralizada até à náusea, com asneirões pelo meio. Duas faltas disciplinares, procedimentos burocráticos da praxe, e os habituais protestos de que "não estavam a fazer nada", mais as ameaças de chamar alguém do Conselho Executivo para as pôr fora da sala.

- 12.30 horas - Passo nas imediações da cantina, e na fila, um aluno do 9º ano, velho conhecido, bate com as cabeças de dois alunos do 5º ano uma contra a outra. Ria-se para as colegas de turma e afirmava estar a "descarregar o stress".

Trata-se de um aluno cujos pais vêm sempre à escola ameaçar com queixas e com tribunais todos os professores, funcionários ou alunos que reajam aos numerosos abusos que comete todos os dias e a toda a hora. É genuinamente mau. Famoso nas redondezas por alvejar gatos e cães com tiros de carabina (oferecida pelo pai especialmente para o efeito).

Uma queixa de um alunos destes implica meses de transtornos diversos, devassas da vida pessoal, ameaças anónimas, etc.. Acerco-me e pergunto o que se passa. Meio tontos, os garotos do 5º ano afirmam que estão todos "a brincar". Não adianta prosseguir. Sustentarão essa versão até ao final das suas vidas, se preciso for, para evitar serem seriamente espancados pelo Abílio, o agressor. Afasto-me, debaixo dos risos sarcásticos dos meninos e das meninas da turma do "herói".

- 13.o5 horas - Uma rapariga que coxeia e tem uma acentuada deficiência numa perna, passa nas escadas e um aluno do CEF (Cursos de Educação e Formação), com ar mais boçal que se possa imaginar, dispara:

- Hã... hã... cande é que quemeças á andar como deva ser?...

Fico aturdido, incrédulo, e escapa-se-me:

- Desgraçado!

- Qué que foi? - responde o aluno do CEF, com toda a insolência.

- Então tu estás a fazer troça de uma rapariga deficiente? - digo eu.

Resposta dele:

- Eu não lhe chamei deficiente. Só disse cando é quela quemeçava á andar como deva ser!

Não vale a pena apresentar queixa. Por estranho que possa parecer, o "argumento" dele ganhava, no actual estado de loucura que tomou conta das escolas.

- 14.45 horas - Alunos de uma turma CEF que foram expulsos de uma aula, correm pelos corredores, empoleiram-se nos muretes e pontapeiam as portas das salas. As funcionárias procuram correr em sentido contrário, por forma a não poderem testemunhar nada nem intervir. Alguns professores, timidamente, assomam às portas. Sabem que nada podem fazer sem correrem riscos sérios de agressão e outras represálias. Procuro conter-me.

- 14.55 horas - O barulho, as correrias, as patadas nas portas, as pancadas nos vidros, continuam. Saio da sala e peço a caderneta do aluno a dois dos "foliões". Um deles sai-se de pronto com o clássico:

- "Eu não fiz nada!". E ri-se, com ar de gozo.

Passam-me coisas pela vista, as pernas fraquejam, sinto um nó no estômago e tonturas. peço na lata de Coca-Cola que ele tem na mão, esmago-a com a minha mão, e peço-lhe de novo a caderneta.
São quatro cadernetas a preencher. Mais uma quantidade de burocracia.

- Volto à sala de aula, estou no meio de uma explicação particularmente complexa, e uma aluna resolve levantar-se para me perguntar se vi o estojo dela (!!!). Continuo a falar e ela a perguntar, ininterruptamente. Chega-se ao pé de mim e no meio da explicação só digo: "Por amor de Deus, vai-te sentar". A aluna continua a matraquear, quase em cima de mim: "Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa?".

Mais uma falta disciplinar. Os alunos resmungam que é uma "injustiça". Apetece-me sair da sala imediatamente e ir para casa. A muito custo, contenho-me. Sinto que me vai rebentar qualquer coisa na cabeça.

- 16.45 horas - O funcionário pede a minha ajuda para desalojar três rapazes, um do CEF e dois do 5º ano (!!!), que sequestraram três raparigas nas casas de banho femininas. As raparigas gritam que se desunham, mas quando chegamos à porta, saem com ar de quem acaba de descer da montanha russa. Eles recusam-se a acompanhar-nos à Gestão. Não podemos tocar-lhes, ou seremos acusados imediatamente de agressão. Mais papéis, relatórios, participações, cartas registadas, entrevistas, acariações.

A Psicóloga da escola está no Gabinete do Executivo, quando vou entregar a papelada. Acusa-nos de não sabermos lidar com os miúdos, que "têm muitos problemas em casa".

Tenho 50 anos. Não é fácil mudar de emprego nesta idade.

Hoje "almocei" e "lanchei" Actimel. Não dei propriamente aulas. Mantive animais selvagens dentro de uma sala, em cativeiro.

Post-Scriptum: Já estou em casa. São 20.20 horas. Entrei às 8.15 e tenho ainda um serão de testes e trabalhos para ver, mais as burocracias de actas e outras. Uma vista de olhos pelas notícias do Público, e verifico que uma aluna CEF agrediu violentamente uma professora em Aveiro. Medina Carreira terá dito que as escolas actualmente são uma bandalheira. Eu acrescento que são um inferno.

4 comentários:

  1. Pois é...mais um dia banal...
    E a tendência é para se banalizar este absurdo e niilismo profissional.
    Das duas, três: ou nos reformamos com antecipação de 10 anos ou arranjamos uma associação psiquiátrica de apoio ao professor ou alienamos os medos e acabamos com esta indignidade.
    Eu opto pela última!
    Força colega!

    Mais um blog para a minha lista dos professorzecos...

    ResponderEliminar
  2. Obrigado. É bom partilhar e saber que não estamos sós nestes dias tão difíceis.

    ResponderEliminar
  3. O meu ambiente de trabalho não é tanto assim, por enquanto! Há alunos desse calibre, mas o número ainda não é assustador. O que se vê mais é a impossibilidade de comunicação com os alunos devido à sua falta de concentração e disinteresse por tudo que não seja "morangos" ou coisa do género. Hábitos que me parecem de infantário, estilo tudo aos "pulos" quase em permanência.
    Também tenho muitos anos de experiência e, apesar de ver uma degradação progressiva ao longo dos anos, nunca pensei que a escola chegasse a isto. A esta quase impunidade só faltava entregar a escola aos políticos e aos pais. Cada vez são mais raros os pais que aceitam qualquer crítica aos filhos, mesmo quando a justiça os condena por crimes. Não consigo entender como os portugueses chegaram a este estado, nem entendo o completo desinteresse dos sociólogos por este fenómeno. Como nunca entendi que um país em que se matava com uma enxadada na cabeça o vizinho que desviava um rego de água era considerado de "brandos costume". Esta deficiência, aplicada a toda a vida social, designadamente a economia, pode (ou já está a) destruir-nos.
    Parabéns pelo blogue e pela partilha das experiências.

    ResponderEliminar
  4. Obrigado, José. Isto foi um grito d'alma. Deu-me para isto... Assim eu tenha saúde e alguma disponibilidade, e espero botar aqui meia dúzia de pontos de vista sobre o que se passa actualmente e me preocupa a vários níveis. Pessoalmente, não sei quanto mais vou aguentar. Em termos gerais, pergunto-me que país é que estamos a criar...

    ResponderEliminar