sábado, 28 de março de 2009

"Escola-Pesadelo"


Tenho recebido cartas electrónicas de professores e não professores, que entenderam a minha mensagem, escrita com simplicidade, sem termos técnicos desnecessários, jargão do chamado "eduquês", o idioma dos teóricas da Educação, que de tanto teorizarem se esquecem de sair dos seus gabinetes e ver como é a realidade!
A todos agradeço a atenção. Desejava dizer de minha justiça e fui ouvido.
Não tenho capacidade e facilidade de expressão para me atrever a corresponder aos amabílíssimos convites para colaboração. Sigo os vossos excelentes blogues com toda a atenção, e continuo a porfiar pela qualidade do trabalho profissional que presto.

Estou preocupado, e não sou só eu. Um pouco por todo o país chegam os sinais de alarme:

Neste post do blog A Educação do Meu Umbigo é divulgada uma reportagem sobre a violência na escola de Marvila. A reportagem é do Expresso e intitula-se "Escola-Pesadelo".

O subtítulo da peça é "Violência: Ameaças de morte e violência aterrorizam docentes e auxiliares em Marvila" - Ministério admite preocupação".

Ana Henriques, na caixa de comentários, disse:

Ontem, soube, através da esposa do mecânico do meu carro, que incidentes extremamente graves estão a acontecer na escola sede do outro Agrupamento do concelho.Um seu filho, de 13 anos, está a ser seguido por psicóloga clínica, por ter ameaçado suicidar-se. Razão: descobriu-se que, desde há 3 anos, é vítima de bulling (é assim que se escreve?)

Após esta desautorização do (des)governo, os professores e funcionários ficaram sem a réstea de autoridade que ainda lhes restava.
A situação deve estar simplesmente caótica.
Se num agrupamento sem história de grandes incidentes de especial, os professores e funcionários são desrespeitados por alunos e famílias, que ninguém tente imaginar o que se passará em outros locais.
Pior, bem pior, que um filme de ficção.

Margarida
disse:

Escola pesadelo é aquilo em que se transformou a escola pública, em geral, com o constante “assobiar para o lado” por parte das estruturas da própria escola, do ME e de outras instituições com responsabilidades na matéria. Este não é um problema apenas destes últimos anos, é um problema que existe desde há tempo mais do que suficiente para que tivessem sido tomadas medidas eficazes.Quem passa por situações de violência dentro e no caminho de e para a escola muito difícilmente voltará a ser a mesma pessoa.É o reflexo de uma sociedade que se foi degradando, desautorizando, amedrontando, deixando que os agressores se agigantassem e tomassem, pelo medo, as suas vítimas.

DA disse:

Saia mais um TEIP.
E um cheque-ensino para os desordeiros… vão para os colégios da alta.
Liberdade de escolha, sempre!

e

Como alguém escreveu na reportagem, guetos urbanísticos geram guetos escolares. Provavelmente nestas zonas as escolas deviam ser encerradas e os alunos dispersos por várias.

Tollwut disse:

BULLYING começa em casa quando os País não têm tempo para os filhos e os atiram quase a tempo inteiro para dentro de um edifício chamado de escola.

Nuno Sousa disse:

Quando eu andava no Liceu, um amigo meu resolveu armar-se em “bully” (nessa altura ainda nao havia esta designacao) atirando um colega pelas escadas abaixo.
Resultado,foi expulso do Liceu, so podendo voltar a frequentar no ano seguinte.Nao havia ca transferencias para outra escola, com o estatuto de heroi.
Estao a espera de que para fazer o mesmo?
Hoje em dia, quando nao se sabe como resolver um problema, seja por cobardia, seja por as pessoas estarem refens da sua propria retorica, inventa-se uma designacao:os bullies.
Depois manda-se um sociologo fazer um estudo, um psicologo escrever um livro , um assistente social fazer o acompanhamento e uma jornalista estagiaria fazer uma reportagem que geralmente comeca com a frase ‘Os numeros sao assustadores” e acaba com a frase ” a populacao esta a beira de um ataque de nervos”.

Creio que é claro que o que está em causa não são politiquices, jogadas de informação e contra informação. O que está em causa é sério.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Emídio Rangel e o "Velho Pedro Nunes"



- Ahhh... estes professores são uns baldas... No meu tempo, no velho "Pedro Nunes", aquilo é que era disciplina, aquilo é que era aprender...

Não é que o Sr. Emídio Rangel me mereça uma especial consideração. O que eu o considero é um arrivista e um caceteiro, na profissão e na vida em geral.

Essa tirada do grande educador da classe otária ficou-me atravessada, contudo, por ilustrar o que pensa um tipo que até é jornalista - apesar de fraquinho. Se assim pensa este tipo, como pensará um que não é jornalista nem nada, e que se calhar nem andou no "velho Pedro Nunes"?...

Emídio Rangel, mais os amigos importantões que andaram nesse Liceu e que ele gosta de salientar (dos pobrezinhos esquece-se sempre) viveram uma realidade diferente. Nessa altura continuava a estudar quem queria e quem podia. Agora o ensino é obrigatório, e vai toda a gente para o Liceu, porque:

a) acabaram as escolas técnicas.

b) se forem antes trabalhar, a Protecção de Menores ameaça retirar os filhos aos pais.

c) dá subsídios.

A maioria dos alunos gosta de andar na escola licealizada que temos. Embora preferissem uma escola diferente, com mais escolha, menos carga horária, etc..

Os jovens delinquentes que a Ministra se gaba de ter ido buscar a casa é que dão o cheque-mate no ambiente já de si degradado e na desautorização dos professores.

Hoje um aluno meu chorava convulsivamente. Estava em pânico, porque a mãe acabara de lhe anunciar que um primo de 9 anos, traficante de drogas no Brasil (!!!), vinha morar com eles! E há-de vir para esta escola, e, faça o que fizer, será impossível dar-lhe mais que a punição prevista na Lei: umas férias de 10 dias em casa, de quando em quando.

Não havia disto no velho Pedro Nunes, ó Rangel...

domingo, 22 de março de 2009

O Presente Envenenado


Neste momento há pais que rejubilam. As escolas preparam-se para estar abertas 12 horas por dia. Actualmente já é difícil manter os alunos concentrados com programas que a muitos nada dizem, com aula de 90 minutos, e com uma carga horária brutal. Como será então?...

A Área de Projecto, a Formação Cívica, o Estudo Acompanhado, foram uma criação do Governo de António Guterres e da responsabilidade directa de Ana Benavente. Foram a antecâmara para o professor generalista que aí vem.

Não é preciso saber muito, ter um curso superior, ser licenciado, mestre, doutor, ser profissionalizado em Ensino.

Não. Para quem é, bacalhau basta!

Metam os meninos 12 horas por dia armazenados na escola, que assim os pais podem estar 12 horas armazenados no trabalho!

É o presente envenenado para os pais, que tomam por benesse o que na realidade é uma armadilha. Perguntem antes porque é que em Portugal não há, como em outros países da Europa, salários dignos, horários dignos e inclusivamente flexibilidade para poderem acompanhar os filhos.

Porque nada substitui a companhia da família na formação das crianças, dos futuros adultos!

Já que estamos a falar de manobras de diversão, refira-se que todo este Carnaval da avaliação de desempenho dos professores, acompanhado de uma intensa e impiedosa campanha de desinformação, se insere na mesma lógica:

- Os seus filhos têm dificuldades na escola? Pois a culpa só pode ser dos professores! mas nós vamos já avaliá-los! E corremos com os incompetentes!

Os pais ficam satisfeitos.

400 professores por semana pedem a reforma antecipada. Os professores vão-se embora porque se sentem ofendidos com tanta calúnia e perseguição. Porque não há país no mundo onde esta farsa a que chamam "avaliação" exista.

Daqui a uns anos vão querer professores a sério e não os vão ter. É o que acontece actualmente na Inglaterra, onde por muito menos que isto houve uma debandada dos professores. O Governo inglês propõe-se actualmente reciclar desempregados da banca e de outros sectores, dar-lhes um curso de 6 meses e pô-los a "dar aulas".

Teremos o que se passou em Portugal a seguir à revolução: professores "a martelo"!

Em Portugal o que nos espera é o mesmo. Mas para manter crianças ocupadas 12 horas por dia não são precisos professores. Os filhos do povo podem ter monitores de tempos livres. Os professores ficam para os colégios particulares onde já estudam as elites, os filhos dos políticos que amanham estas leis e este Ensino.

Adeus, amigos! Era tudo o que queria dizer.

O Irrelevante

O Outro Equívoco


O outro equívoco é do pomposamente chamado ensino inclusivo. A seguir á revolução de 1974 achou-se que o ensino técnico era discriminatório, que era para os pobres. Não era.

Nos países onde o Ensino é mais avançado, existe por exemplo a separação dos alunos em três níveis logo após o 4º ano.

Não é realista obrigar-se alunos de capacidades tão diferentes, a permanecerem na escola até ao 9º ano, aprendendo as mesmas coisas, em programas decalcados do antigo curso liceal.

Há alunos que têm vocação para aprender uma profissão mais cedo, que adoravam estar em cursos técnicos. Mas as escolas técnicas acabaram.... E os cursos de educação e formação, os chamdos CEF, não são nada. São um depositário de jovens delinquentes que vão á escola por ordem dos pais, para justificar subsídios estatais. Os CEF em si nada têm de mal. O problema é que esses jovens escolhem os CEF por terem menos carga horária teórica. A partir daí é o descalabro, como se vê todos os dias nas notícias. É nessas turmas que ocorre regra geral a grande violência escolar.

Outros alunos simplesmente não têm capacidade para acompanhar a complexidade dos programas, desenhados para futuros "doutores". A seguir ao 25 de Abril, Democracia era "todos serem doutores"...

Os alunos não são todos iguais. Não são melhores nem piores. São diferentes. E esse direito á diferença não é respeitado!

Um Equívoco


Hoje, nas nossas escolas, vivemos dois graves equívocos:

O primeiro:

É o de que a escola dá educação. É parcialmente verdadeiro. A escola dá instrução e educação. Mas não pode fazer de meninos mal educados e mimados, ou de meninos marginalizados dos bairros de lata, prodígios de civismo e bom trato.

O papel das escolas é o de serem locais onde se ensina e se aprender. Não são instituições destinadas a injectar civismo em alunos que não o possuem porque não o trazem de casa, da família, do bairro, da Sociedade.

Não é desculpabilizando o malcriado ou o delinquente, não é permitindo que estes agridam, insultem, impeçam os colegas de aprender, que se resolve seja o que for! Na escola deve pedir-se a mesma conduta que se pede em qualquer outro lugar.

O jovem Kuku, que apontou uma arma a um polícia e recebeu um tiro do agente (que procedeu correctamente), quantas vezes terá sido desculpado na escola pelos seus comportamentos de delinquência?

Foram os professores que o desculparam? Não. É o sistema que o exige.

EPÍLOGO

Nos tempos que correm, parece ser estratégia de alguns Governos (não só do Governo português), o alijar de responsabilidades, como a de promover segurança, trabalho, qualificação profissional, bem-estar social, e olhar para as escolas e para os professores como donos de uma varinha mágica que faça aparecer cidadãos "salvadores da Pátria".

Tudo se pede às escolas e aos professores, e, de caminho, todos os males do mundo se lhes apontam. O País não funciona bem? A culpa é dos professores! São um bombo da festa conveniente, e de caminho até dão jeito para justificar que boa parte da população ganhe mal.
Há políticos desonestos que espalham falácias, como as de que os professores ganham 3 mil euros e trabalham 6 horas por semana com 6 alunos cada um, em média.

Haverá necessidade de dizer que isto é absurdo, ofensivo, calunioso, criminoso, até???

Algumas pessoas recordam os seus tempos de escola, em que se aprendia mais, e em que havia mais respeito.

Esquecem-se de que nesses tempos, iam estudar os meninos de famílias que valorizavam a instituição Escola.

Outros lembram que há 30 anos que as escolas têm problemas. Esquecem-se de que há 30 anos houve uma revolução em Portugal, e, se antes a escola era obrigatória até à 4ª classe, a seguir à revolução a escolaridade foi alargada.

E que todos os meninos passaram a andar na escola até ao 9º ano. A seguir á revolução foram recrutadas pessoas para dar aulas. Não foram recrutados professores.

Essas pessoas fizeram o possível, mas raramente bem. Essa não é a situação hoje! Já há muitos anos que há professores com formação académica e profissional de grande qualidade. Assim pudessem trabalhar.

O meu horário de trabalho

O meu horário de trabalho não são "25 horas de aulas por semana".

Aliás, se fossem 25 horas de aulas, seriam menos horas, porque cada bloco de aulas tem 2 x 45 minutos. E ainda tenho a "fabulosa benesse" de poder gozar 22 dias de férias por ano, sempre em Agosto, e de raramente ter que ir à escola na semana na semana da Páscoa e na última semana de Dezembro...

Pensemos antes assim:
Se eu entro às 8 e meia e "saio" às 5 e meia, estive 9 horas na escola.

Descontando 1 hora para almoço (muitas vezes não é possível, e quando é, são 15 minutos e não uma hora).
Nessas 9 horas os intervalos foram ocupados a esclarecer dúvidas de alunos, a preparar a sala para a próxima aula, a preparar materiais diversos, a fazer fotocópias, a transmitir e receber informações de e para colegas, professores de apoio, assistente social psicóloga, Gestão, etc..

O raio do problema é que esses tempos, actualmente, são preenchidos com o calvário burocrático das papeladas que nos são exigidas para registar as famigeradas "ocorrências disciplinares".

A essas 9 horas podem acrescer mais uma, duas, três, para acabar o preenchimento das famigeradas papeladas, para atender Encarregados de Educação fora de horas, para reuniões, e outras tarefas que descrevi em posts anteriores.
À noitinha, em casa, "brincamos" um bocadinho aos professores, fazendo o que fazemos aos fins de semana.

Mas eu estou a chorar-me por trabalhar 12 horas por dia???

Não! Se estou a chorar-me é por boa parte dessas horas ser gasta a tentar conter com uma esponja a inundação de indisciplina e violência que tomou conta das nossas escolas! Gasta o meu tempo e "rebenta-me" com a saúde?

Pergunto:

A QUEM É ISSO ÚTIL???

A QUEM É ÚTIL TODA A SITUAÇÃO QUE DESCREVI NESTE BLOG E QUE É O NOSSO DIA A DIA? OS ALUNOS BENEFICIAM EM QUÊ? A SOCIEDADE BENEFICIA EM QUÊ?

O meu fim de semana

Hoje é domingo. Está um dia lindo. Sei porque meti o nariz fora da janela, e senti a brisa primaveril, ouvi os passarinhos a cantar, cheirei o aroma das glicínias em flor e vi um bando de ciclistas dominicais a passar, pesadões e felizes nas suas lycras coloridas.

Quem me dera poder ir dar uma voltinha. Mas não posso. Sou professor.

E como tal os meus fins-de-semana são passados a fazer aquilo que não pude fazer durante a semana. Por duas razões:

1ª - Porque em Portugal, como por exemplo em Inglaterra, a burocracia sufoca os professores, que passam boa parte do seu tempo a preencher papéis.

Mas são papéis úteis?

Não. Não servem para nada!
2º - Porque os procedimentos burocráticos ligados à indisciplina consumiram grande parte do meu tempo na escola durante a semana.

(Quer saber como? Leia o próximo post...).

Mas são procedimentos burocráticos úteis?

Não. Não servem para nada.

- Mas ó meu amigo, eu também não tenho fim de semana!
- adivinho alguém a dizer...

Pois é verdade. Nem eu me estou a chorar por não o ter. Estou a lamentar que só no fim de semana eu tenha realmente disponibilidade para fazer o que devia fazer durante a semana: ser professor!

Porque é ao fim de semana que tenho disponibilidade para planificar aulas, ver trabalhos de alunos, e comunicar com os alunos a sério via Internet (blog e plataforma moodle). É que nas aulas, entre a indisciplina reinante, as patadas nas portas, as gritarias nos corredores... é difícil!

sábado, 21 de março de 2009

A Minha Bicicleta e Eu ou Kafka Revisitado

Costumam ser "apenas" uns riscos, uns vidros partidos, uns pneus furados. Nem é notícia. Ontem foram cocktails molotov e foi notícia.

Mas o que galvanizou muita gente foi o escândalo de os carros serem Mercedes. Um comprado estragado e recuperado pelo seu proprietário, e outro um vulgar utilitário.
Mas que é lá isso? Ainda assim, são Mercedes! E professor não pode ter Mercedes!

Foi o bom e o bonito! Foi alegria, foguetório e festa rija! Atreveram-se a comprar Mercedes? Pois tomem lá! E a Mercedes sabia que havia professores com carros da sua marca? Eis aqui um aspecto a ter atenção... A Mercedes deve ver a quem vende. cada comprador deve assinar uma declaração comprometendo-se a não vender o seu Mercedes a um professor!

Ontem, e pela primeira vez na minha vida, referi-me ao facto de que não tenho carro. Tenho três bocas para sustentar, o meu ordenado ronda os 1400 euros após 25 anos de serviço e com profissionalização e licenciatura a sério. Não me queixo. Nunca me queixei. São opções e condicionalismos da vida de cada um e só a cada um dizem respeito. Eu não posso ter carro. No big deal!

Quando tinha carro, habituei-me a ouvir alguns comentários de "gozo" dos alunos acerca da minha "farronca velha". No auge dos subsídios da UE para tudo e mais alguma coisa e em especial para a agricultura, os pais dos alunos e os alunos maiores "apresentavam-se com grandes máquinas".

O novo-riquismo, que anda sempre de braço dado com a chamada "cultura da pobreza", fazia os meus alunos verem-me como "menos" que os pais e os irmãos. E diziam-no:

- Ó setor, quanto é que ganha por mês?... O meu pai faz uma sementeira de girassol, não o apanha, e o subsídio que lhe dão é mais do que você ganha num ano!

Se era difícil fazer-me respeitar andando numa "farronca velha", mais difícil passou a ser quando a troquei por uma bicicleta. A evolução da modéstia dos meus meios de transporte acompanha a evolução da falta de respeito pelos professores e pelos adultos em geral.

Acabei por deixar a bicicleta em casa. Moro numa cidade pequena, posso vir a pé, e por morar numa cidade pequena onde toda a gente me conhece, sentia-me bastante embaraçado por causa das gritarias que alguns alunos faziam quando me viam passar. Como se eu fosse uma ave rara, uma espécie de palhaço do circo, havia gritos e uivos quando me viam a pedalar.

- Eh, setor!!!! Olhó gimbras!!!!

Bocas sortidas, um verdadeiro atentado à dignidade de uma pessoa com mais que idade de ser pai deles, o povoléu todo a olhar, e certamente a censurar o pressuposto (erradíssimo) de eu lhes dar eventualmente confiança para tal.

E como parar os uivos?

Fora de questão, pelo ridículo, ir à polícia queixar-me de uivos, bocas e asneiredo à minha passagem.

Fora de questão enfiar uma bofetada num. Todo e qualquer cidadão nacional pode dar uma bofetada num energúmeno com idade de ser seu neto que se atreva a fazer algo semelhante. Professor não pode. Era logo processo disciplinar, queixas dos pais, tribunal, ajustes de contas, etc..

Fora de questão "vingar-me" nas notas ou em outras represálias na escola. E nem é preciso explicar porquê!
De maneiras que venho a pé. Não corro o risco de incendiarem a minha bicicleta. Só a mim, se calhar, um dia destes...

Mas que se cale tudo quanto Franz Kafka canta, quando a opinião pública se alevanta:

O professor não tem dinheiro para um carro?

É um vencido, é um medíocre, como é que se pode dar ao respeito? É um morto de fome que só está no ensino porque não tem mais nada...

O professor tem um Mercedes?

É um malandro! É por causa de ele ter um Mercedes que eu ganho só 800 euros por mês! Como é que assim se pode dar ao respeito?

Quando a minha vida melhorar, quando os problemas que motivam o actual aperto financeiro da minha família, conto fazer um pequeno inquérito junto da população para saber que carro devo comprar, e se novo ou usado. Não escondo que adorava ter um Volkswagen Golf com pouca quilometragem. Pode ser?...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Horários, Ordenados e Carros Incendiados

Na notícia do Público acerca dos dois carros de professores que foram incendiados, boa parte dos comentários apontam não para o sinal de alarme que é ter incendiários dentro de uma escola, mas para o facto de um dos carros ser Mercedes!

Ora aqui está uma oportunidade para eu expor a minha situação laboral-financeira. O que se diz por aí é que os professores ganham 3 mil euros em início de carreira e que trabalham 6 horas por semana, que têm 3 meses de férias por ano, e provavelmente que comem crianças ao pequeno-almoço! Essa "informação" é passada a par com o lembrete discreto de que há quem ganhe 500 euros por mês. Pois há. A minha filha mais velha, por exemplo, é trabalhadora-estudante e ganha ainda menos!

Deve haver certamente algum complot contra mim, pois tenho 25 anos de serviço, sou licenciado e profissionalizado com boas notas, tive sempre boas avaliações, e ganho cerca de 1400 euros por mês.

Tenho no meu horário 24 horas de aulas por semana mais as que dedico à Direcção de Turma, ao clube, às reuniões, à preparação de aulas, à correcção de trabalhos, às acções de formação, à manutenção de páginas escolares na Internet para apoio aos alunos, às ajudas voluntárias na Biblioteca, Ludoteca e sala de Estudo, às tarefas burocráticas (como as de carácter disciplinar, conforme se pode verificar da minha experiência «Uma Semana de Indisciplina», que acabou hoje) e outras que seria fastidioso enumerar.

As minhas férias não são iguais às dos alunos. Para além de o meu horário de trabalho semanal ultrapassar generosamente as 35 horas previstas na Lei - e esta é uma profissão psicologicamente muito desgastante, como as de médico, polícia, mineiro ou enfermeiro - e de trabalhar sempre nos fins de semana, tenho 22 dias de férias em Agosto, e, se possível, a actividade não lectiva nas escolas abranda na semanas da Páscoa e do Natal. Ó criiiimeeee!!!

Tenho duas filhas a estudar. A minha Mulher é doente e não pode trabalhar. Não tenho automóvel. Não tenho recursos financeiros para tal. Fiz o meu curso superior como trabalhador-estudante e julgo não estar a cometer nenhum crime ao ter escolhido esta profissão. No entanto, caso os comentadores do Público desejem, posso dar-vos a minha bicicleta para incendiarem...

Sexta-Feira, 20 de Março de 2009

Chega hoje ao fim a minha experiência. Quase aconteceu o que eu tanto queria: um dia sem complicações. Os blocos de aulas da manhã foram muito bons. Os alunos estavam calmos, concentrados e amáveis. Seria perfeito se não fosse já a transição para a famosa "semana do enjoo"...

Hoje os alunos habitualmente invisíveis no mar de indisciplina, encontraram terreno fértil para germinarem um bocadinho, e ouviram-se observações interessantes, raciocínios inteligentes, discursos articulados. São estes os maiores oprimidos das escolas. Não têm um sindicato nem uma Ordem, não têm à vontade para reclamar de que não os deixam ter aulas em condições. Ocultam como podem a frustração, e, quando não podem mais, começam a ter fobia em relação à escola.

Como o dia estava a correr bem, e, como tal, não tive papelinhos de ocorrências disciplinares para redigir, aventurei-me a ir almoçar na cantina. Habitualmente não vou, pois não tenho estômago para assistir calado às agressões físicas e verbais que os alunos CEF e afins fazem aos outros alunos e às funcionárias.

Hoje só tive que repreender um aluno que pegava na funcionária e a abanava, gritando que não comia sopa, nem fruta, nem salada. As funcionárias têm ordens para sugerir o consumo desses alimentos... Esta funcionária, como é habitual, sentiu-se envergonhada com a minha intervenção e declarou que "era a brincar".

Na cantina, nada de especial, para além das gritarias, correrias, comida entornada, um ou outro aluno a tentar entrar ou sair pela janela, palavrões, bonés na cabeça, e água bebida directamente dos jarros de onde todos se servem.

Evita-se olhar, finge-se que não se vê, porque toda a gente vê e sabe, e não queremos ser os únicos a representar o papel de "maus da fita".

Tudo estava a correr razoavelmente para os tempos que correm. Até que chega a aula com a minha Direcção de Turma, e acontece o que já previa: com o aproximar do final do período e o início do calor, as agressões entre alunos multiplicam-se. "Entre alunos" é forma de dizer... Será mais correcto dizer dos rufias sobre os alunos normais.

Balanço do dia:

- 8 alunos apedrejados por três repetentes costumeiros na violência e desacatos.

- 1 aluno agredido a pontapé por um matulão bem mais velho.

- 2 alunas agredidas com pontapés desferidos à queima-roupa com uma bola de futebol para a cara.

Hora e meia de recados em cadernetas, registos de ocorrência, identificação de agressores, redacção de relatórios, fotocópias, arquivo dos documentos produzidos, comunicação verbal aos Directores de Turma.

Em termos de tempo gasto com indisciplina e violência foi um dia bom. para os alunos que levaram pedradas, pontapés e boladas, foi um dia como os outros, com nódoas negras, lágrimas, raiva contida, roupa enlameada, frustração e indignidade.

Post-Sriptum: da vasta selecção de casos de violência escolar que a Imprensa todos os dias divulga, destaque hoje para os carros de professores incendiados em Mindelo.
Da notícia do Público destaco esta frase: "O docente não tem ideia de quem lhe possa ter incendiado o carro, mas assume ter alunos problemáticos e já ter sido vítima de ameaças físicas".

Documentário de aluno: O que vem a ser o bullying?

Também é daqueles que acha que garotos à pancada é lá coisas deles, é normal e saudável? Então imagine que a si, adulto, andavam todo o dia a perseguir, a chamar nomes, a bater, a extorquir dinheiro, a fazer troça, a ameaçar, etc..

Muitos adultos esquecem-se de quanto custava ser massacrado pelos rufias. Hoje, a rufiagem chama-se bullying. Um aluno fez um documentário que pode ser visto clicando aqui.

De caminho procure saber se o seu filho, neto, irmão, andam a ser vítimas desta prática. Raramente os jovens admitem, mesmo quando são vistos a levar pancada ou a serem roubados. Dizem quase sempre que é "brincadeira". Porque se se queixam, sabem que levam mais. É esta a dura realidade. Com 9 ou 10 anos já sabem que não podem confiar na Justiça, na lei, nos adultos, na vitória do Bem sobre o Mal...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Quinta-Feira, 19 de Março de 2009

Aproxima-se o final da minha experiência. Relatar os highlights de uma semana de indisciplina. Posso a qualquer momento encerrar o blogue e não me ralar mais com isto, mas quero levar até ao fim. E só falta um dia. Mas que custa, custa!

Hoje não vou reatar por horas. para variar vou relatar em episódios, na sequência em que aconteceram:

Primeiro bloco da manhã:

O "Capõ"

- O pai amandou as milenas par' cima do capõ do carro... - dizia um aluno, numa das habituais conversas derivantes que podem aparecer a propósito de qualquer coisa.


Um exemplo:
Uma pessoa diz: "os romanos construíram aquedutos, estradas e pontes".
Um aluno pega numa palavra relacionada com a frase ou o tema e começa a divagar, dicamos, assim: "o pai aquando vai pa Ponte de Lima vai sempre ábrasar, cá radares da polícia pa ninguém...". Etc..

Estupidamente, pois ainda sou uma besta ingénua que não entendeu que actualmente os professores não servem para dar aulas, mas para fazerem de figurantes num improviso diário dos Morangos com Açúcar, caio na asneira tremenda de corrigir o menino!
ERRO!!! Não tardam as acusações de que estou a embirrar com ele. Sim, actualmente, corrigir ou fazer questão de ensinar, é embirrar com os alunos.

Às nove horas da manhã isto tem um efeito aproximado ao do ferro do picador sobre o touro que entra na arena, numa praça em Espanha. Uns minutos a ser picado e o animal fica quebrado, atrofiado, submisso, confuso, desalentado, perdido...

Eu sou o touro.

Final do segundo bloco da manhã


O Cilindro

Tendo pedido já há alguns dias que a funcionária dos balneários me chamasse quando os alunos e alunas da minha Direcção de Turma se comportassem mal outra vez a seguir à Educação Física, a funcionária assim fez. Recebo a chamada interna e vou a correr aos balneários.

-Meninos, já aí estão há meia hora! Depois não há água quente para os outros...

- Vá pó caralho, sua vaca de merda, sua velha!!!... (etc., etc., etc.).

Com as meninas foi igual. Ou pior.

Mais uns quilos de papelada: relatórios disciplinares e cartas registadas para todos os pais. Para quê? Para nada, obviamente...

Última aula da manhã

A Roda dos Alimentos

Besta quadrada incorrigível, ainda acredito, após 25 anos de serviço e no panorama do mundo de hoje, que é possível, no 8º ano, ensinar aos alunos os malefícios das bebidas alcoólicas, do tabaco, da comida desregrada.

Meio a dormir após a Educação Física, apáticos, sem o mínimo interesse. Nem uma pergunta, nem uma colaboração nas actividades que planeei e não pude realizar porque simplesmente se deixaram ficar, quietos e apáticos. Metade da turma não tomou pequeno-almoço. Desde o início do ano que repiso, junto deles e dos pais, que é necessário tomar pequeno-almoço. Olham para mim como se eu fosse um louco.

E quando se tem Educação Física, é supimpa!

A seguir, fui almoçar. Da cantina via boa parte da turma, do lado de fora da escola, sentados nos bancos a comerem batatas fritas e coca-cola. Fixe!

Primeiro bloco da tarde

A Meia-Dúzia

Durante esta aula saí 6 vezes 6!!! para PEDIR a um grupo de meninas que parassem de dar gritos e uivos nas imediações da minha sala de aulas, sob pena de eu não conseguir concentrar-me e os alunos não me ouvirem e eu a eles.

Não tendo aulas, as meninas não sabem fazer mais nada. "A escola é fixe, as aulas é que são uma seca" - uma máxima que se pode ouvir de norte a sul do país e ilhas adjacentes.

Prometo noutro post transcrever o relatório (mais um...) que tive que redigir após ter vindo 6 vezes 6 cá fora PEDIR silêncio. Silêncio é uma forma de dizer, pois na escola de hoje não há silêncio nem nos corredores nem nas salas.

É uma pressão inacreditável em que se trabalha, e só a compreende quem passa pela experiência.

Nas imediações da minha sala há cobertura de rede da Internet para os portáteis. As meninas ficam nos aifáives e berram que nem umas ovelhas desmamadas enquanto admiram os músculos dos rapazolas. "Apreendi" o portátil, com a promessa de o devolver no final da aula, mas quando cheguei à sala dos professores, a Directora de Turma das meninas já tinha um relatório oral dos factos.

Era mais ou menos assim:

Elas não fizeram nada! Os alunos nunca fazem nada - o famoso "I didn't Do It" do Bart Simpson - eu é que sou doido e lhes "roubei o portátil.

Imagino como estará o meu cérebro e o meu estômago. Imagino e tenho relatórios médicos. Apanhar disto, todos os dias, revolve as entranhas.

Fim do dia na escola

Internacional e Mais Além!

O "famoso" Raimundo, da turma especial do 6º ano, não só é um phone bully, um garoto mau que rouba telemóveis, como é um empresário de vistas largas. Resolveu expandir o negócio da seguinte maneira: põe outros alunos a roubarem telemóveis para ele, mas é um roubo condicional. Ele confisca-os e depois pede um resgate pelos aparelhos. Assim rouba várias vezes os mesmos alunos! Está certamente à frente dos alunos marginais de outros países!

O pai é alcoólico, a mãe é doente. Está a repetir o 6º ano pela enésima vez sem qualquer tipo de aproveitamento. Vem à escola para a família receber subsídio. Sugerir que seria boa ideia ele aprender uma profissão ou ir para uma instituição, um colégio interno, é considerado heresia!

O Raimundo gosta de vir à escola, gamar, apalpar as funcionárias e "gozar com os setores". Outro colega da mesma turma é mais pragmático. O "Dogas" vem apenas os dias necessários para receber o subsídio. Numa aula recente declarou que o edifício da escola era bom mas era para uma casa de putas. É o negócio da família dele.

Dei sete blocos de aulas. Todos os intervalos foram ocupados com relatórios disciplinares. Fiquei na escola a actualizar listas de faltas, a fazer cabeçalhos, folhas de presença e de acta, a fazer cartas para os Encarregados de Educação. Em casa, quase na clandestinidade, preparei as aulas de amanhã e actualizei a página do moodle. Os meus alunos que ainda se interessam é que me fazem andar.

Agora preparo-me para jantar e dou uma volta pelos blogues e outros sites. Fiquei a saber pelo blogue de Ramiro Marques
que ontem uma família cigana invadiu uma escola armada de paus e barras de ferro e agrediu quem se lhe atravessou à frente! A GNR declarou que vai estar mais atenta, etc., etc..
Vivemos na TOTAL impunidade! Dá ideia que há um complot para que cada vez mais professores, funcionários e alunos que efectivamente andam na escola, serem cada vez mais espancados! Mas sosseguemos! A juntar à notícia de mais uma saraivada de mediadores culturais, junta-se mais uma medida tipicamente socialista do tipo observatórios, comités, comissões, estudos, muito bla bla e tudo na gaveta: noticia o Público que a Tutela cria Gabinete Coordenador de Segurança Escolar .

Deve ser para contabilizar as ocorrências de violência e criminalidade, a julgar pelo quanto esses números tardam a sair...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Quarta-Feira, 18 de Março de 2009

Hoje é o meu dia não-lectivo. É verdade, os professores por vezes têm um dia da semana em que não dão aulas. Mas fazem reuniões, preparam aulas, vêem trabalhos e testes, escrevem nas suas páginas do moodle e outros suportes informáticos dedicados ao ensino dos seus alunos.

Falo no presente, mas na realidade já não é bem assim. Antes, quando tinha dia não-lectivo, caso estivesse bom tempo levava o trabalho para o parque que fica perto da minha casa, e aproveitava a inspiração da Natureza para retemperar energias, oxigenar, e sobretudo preparar aulas ou ver trabalhos que requeressem mais reflexão.

Hoje já não é assim. Três horas da minha manhã foram dedicadas a escrever cartas registadas para Encarregados de Educação com relatórios de faltas injustificadas, retenções por faltas, e a redigir relatórios de ocorrências disciplinares na minha Direcção de Turma. A contabilidade:

- Um aluno que chamou estúpido ao professor de Matemática, alegando (sem razão!) que este lhe tinha corrigido mal o teste.

- Uma aluna que esbofeteou outra violentamente e lhe puxou os cabelos, tendo-lhe cortado a boca por dentro, devido a uma confusão de rapazes, telemóveis e Internet.

- Um aluno que se levantou do lugar em plena aula de Educação Tecnológica, e desferiu uma saraivada de socos noutro.

Recebi dois Encarregados de Educação, que só vieram à escola depois de os seus filhos terem sido "retidos por faltas", que é chumbar por faltas sem chumbar.

"Não sei o que é que lhe hei-de fazer..." - foi a frase mais ouvida.

E foram quatro horas e meia de trabalho maçador e inútil, seguidas de almoço, e de tarde o oásis da minha semana: o clube. Aqui só estão alunos que gostam, que escolheram inscrever-se no clube, que têm interesses elevados que os trazem para estas coisas, e que por isso se comportam bem.
Ensino e eles toma atenção. Exemplifico e eles fazem. Não tenho que ralhar nem preencher recados em cadernetas, folhas de registo de ocorrência e relatórios disciplinares. Não saio desmoralizado e doente.

Dantes, ensinar era assim.

A terminar o dia, uma reunião para retenção por faltas de um aluno. Mais um culminar de uma via sacra de burocracia, que não serve rigorosamente para nada.

No final da semana conto fazer a contabilidade desta experiência.

Hoje não dei aulas e evitei ao máximo permanecer sequer no átrio. Evitei problemas de maior. Apenas a constante permanência de alunos em massa no átrio da escola, como acontece todos os dias, sob os mais absurdos pretextos. Basicamente estão ali para atazanar o juízo das funcionárias. É um jogo, para eles. Uma diversão.

A quarta-feira também é dia de os alunos dos CEF (Cursos de Educação e Formação) estarem nos seus "estágios". A escola fica mais calma. Apenas os jovens que estão cá fora, ao portão, a fumar tabaco e não só, e a beber cerveja da garrafa, são outros que não os CEF.
Quando sai ou entra professor ou professora, o catálogo do palavreado mais obsceno que existe é imediatamente debitado a plenos pulmões, e as cenas de sexo ao vivo com roupa crescem momentaneamente de intensidade. Mas isso não é só às quartas-feiras.

A Quinzena do Enjoo - Prelúdio

Vou no terceiro dia da minha experiência a que chamei Uma Semana de Indisciplina, e sinto-me incomodado. Nunca pensei que fosse tão penoso, depois de se viver as situações, e de as descrever em relatórios oficiais, ter que as reviver em formato de blogue.

Anima-me a ideia de que, após esta semana em que contabilizo casos graves de indisciplina e horas dedicadas a relatá-los em documentos que serão arquivados, terei material para uma ou duas breves reflexões. Ainda assim, fazer este blogue foi uma espécie de missão a que me obriguei, nem mesmo eu sei porquê.

Esta semana foi escolhida por impulso, na última sexta-feira, dia 13, mas foi um acaso feliz. É que na próxima segunda-feira, pontualmente, começará a chamada semana do enjoo: os alunos, que se comportam como bárbaros e loucos durante todo o período lectivo, na última semana esmeram-se em simpatia, fitam os professores atentamente durante as aulas e vão acenando com a cabeça em sinal de interesse pela matéria leccionada ou concordância em relação a tudo o que o professor diga.

É a semana de esperteza saloia destinada a amolecer o coração dos professores, para que estes revejam as notas e subam as que puderem, pois, entre outras consequências, más notas podem significar menos prendas e menos carregamentos de telemóvel.

No final do 1º período dura uma semana, este período de enjoo. No 2º período também. No 3º período serão duas semanas, ainda mais patéticas porque acompanhadas do estribilho "ó setor, seja bonzinho, vá lá, dê-me positiva, se não o meu pai mata-me".

Os Ciganos na Escola

Nem será preciso dizer que nada me move contra os ciganos, ou contra qualquer outro povo. Acredito - e a experiência assim me diz - que não há povos fadados para o crime ou para a marginalidade, povos superiores ou inferiores.

Contudo - e os ciganos que conheço concordam - a comunidade cigana tem sido, nos últimos anos, muito permeável à delinquência. As gerações mais novas entraram em massa no tráfico de drogas e outras actividades criminosas.

Movidas pela síndrome do "politicamente correcto", as autoridades usam a discriminação positiva na forma de tratar os ciganos. Os ciganos não respeitam leis básicas, como o Código da Estrada. São precedentes perigosos que lhes abrem caminho a abusos de vária ordem. Vivendo em clãs, os ciganos dispõem da força da união. Toda a gente sabe que, se se travar de razões com um cigano, passado um bocado terá todo o clã á sua porta, armado e disposto a tudo para conseguir a vingança.

Agora imagine-se como é com os alunos ciganos nas escolas, quando o panorama geral de indisciplina já é calamitoso. O aluno cigano sabe que ninguém no espaço escolar se atreve a repreendê-los. Quando algum professor se atreve a chamar a atenção a um aluno cigano, há boas possibilidades de que este lhe responda "Eu sou cigano. Não pode obrigar-me a fazer isso" ou "Eu sou cigano, não pode castigar-me".

Ontem, em Aveiro, uma professora terá tido a veleidade de tratar uma aluna cigana como qualquer outro aluno. O resultado? Levou uma sova da aluna e foi parar ao hospital.

Repito: hoje em dia, os alunos oriundos de meios em que reina a marginalidade, levam para a escola os seus maus hábitos, impunemente.
Não são apenas os ciganos.
Quem já trabalhou numa escola suburbana, e visitou os bairros sociais onde estão alojadas famílias ciganas, sabe bem dos Porches e das somas brutais em dinheiro nos bolsos, à mistura com o rendimento mínimo, as couves plantadas nos lavatórios e bidés dos apartamentos, mais os burros e os porcos nos rés-do-chão totalmente degradados e inabitados, que servem de curral e pocilga, depois de as portas e janelas terem sido arrancadas para lenha ou para vender o alumínio.

Na foto pode ver-se a escola da lagoa Negra e o "contentor" que está a servir de motivo para picardias políticas entre Governo e Oposição. De ambas as partes, o ignorar da realidade e o aproveitamento político de uma situação em que a intenção dos professores foi a melhor.

S.O.S. Demagogia

Está a dar brado, por estes dias, o caso dos alunos ciganos que, na Escola Primária de Lagoa Negra, Barcelos, que alegadamente teriam aulas à parte, num contentor.

Dito assim, tem-se a imagem de uma espécie de campo de concentração para ciganos, segregados pela Sociedade.

Afinal parece que não era bem assim. Foram os professores que contactaram a matriarca do acampamento principal para que os 17 alunos, com idades entre os 9 e os 19 anos frequentassem a escola. A dita senhora aquiesceu, e formou-se uma turma só de alunos ciganos. As aulas afinal não são num contentor, mas sim num monobloco com ar condicionado e outros confortos que o resto da escola não tem.

Como seria de esperar, o caso está a servir de arma de arremesso político.
A Oposição acusa o Governo de discriminação.
O Governo procura mascarar uma medida errada com as boas intenções que a motivaram. Na boa tradição da prática socialista, tudo passa pela multiplicação de comissões e sub-comissões, pela atribuição de nomes pomposos às coisas simples, e, como tal, a escola passa a "Território Educativo de Intervenção Prioritária", um nome quase tão castiço como o inefável Valter Lemos, que deu a "boa-nova"!

Efeitos práticos desta medida? Obviamente que nenhuns. Apenas papelada.

Na conversa de rua, que é onde os votos e as eleições se decidem, os adeptos da Oposição clamam que se trata de racismo. Os adeptos do Partido no poder louvam a medida "governamental" de "proteger os alunos normais dos malandros dos ciganos". É demagogia cruzada!

Onde o Governo falhou não foi em ter permitido a criação da turma. O Governo falhou em permitir que haja alunos ciganos e não-ciganos que se comportam na escola à margem da lei, gozando de total impunidade.

Imagine-se rapazes e raparigas de 12, 16, 19 anos, criados em meios onde campeia a marginalidade, a terem aulas com as crianças da foto. Seria difícil em condições normais. Nas actuais condições é impensável.

E se é verdade que nem todos os ciganos são assim, não é menos verdade que muitos deles não respeitam as leis nacionais, se dedicam a negócios ilegais, são violentos, são desordeiros, reclamam (e recebem) casas gratuitas, subsídios e outras benesses, e se revelam elementos negativos na Sociedade que os acolhe.

Esta escola sabe disso. De forma altruísta, foi buscar os ciganos a casa para lhes dar instrução. De forma realista, manteve-os afastados dos restantes alunos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Terça-Feira, 17 de Março

Não é por ter decido relatar esta semana em termos de indisciplina que estou mais atento para ela, ou que guardo alguma expectativa. Sobretudo por causa disso até gostava de ser agradavelmente surpreendido com um dia sem problemas de maior. Infelizmente ainda não foi hoje...

8.15 horas - Quando passo o portão, os quatro alunos da ocorrência ("ocorrência", até já usamos linguagem policial) de ontem 14.55 horas lançam um grito:

- Ó setôr, quando é que dá as cadernetas que ontem roubou à gente?

Hesito. O que fazer? Os pais olham, com ar crítico, e imagino-lhes a conversa, "Ao que isto chegou... "Eles" não se dão ao respeito e depois admiram-se...". O costume.
No caso de eu ir pedir satisfações aos meninos, estes rir-se-iam na minha cara.
No caso de eu apresentar a queixa, na Gestão achar-me-iam "picuinhas".
No caso de eu espetar duas lambadas nos meninos, era uma chatice das antigas...

10.20 horas - O Carnaval foi há umas semanas. Um aluno apareceu-me completamente encharcado. Não foi um balão de água. Foi um saco de água. "Brincadeiras"...

12.15 horas - Uma pedra do exterior atingiu um aluno na cabeça. Ninguém viu...

13.50 horas - No intervalo, o tal aluno de nome Raimundo, da turma especial, andava a apalpar e beijar as funcionárias todas. Vi de longe e fui pela escada, dei a volta pelo 1º andar, para não ser obrigado a passar calado, ou, em alternativa, apresentar mais uma participação e esta ser desmentida pelas funcionárias, que têm medo dos alunos - e é caso para isso.

14.30 horas
- O barulho é insuportável. Saio da sala para ver o que se passa. Uma festa de boas-vindas a um aluno que esteve gravemente doente, descambou num caos. É uma turma do 5ºano. À janela, um dos alunos grita obscenidades a quem passa, enquanto a professora tenta desesperadamente pôr ordem na turma, que perdeu o controlo. O aluno que está à janela é um dos que ontem invadiu a casa de banho das raparigas. Os pais, quando (raramente) resolvem aparecer na escola para tomar conhecimento do comportamento dele, dizem para a Directora de Turma:

- Só se a gente matar o rapazeco...

É gente que vive do tráfico de drogas.

Às 16.30 horas acabei as aulas do dia. O saldo não foi mau, em termos relativos. Agora estou a escrever estas breves linhas no intervalo de trabalho administrativo. Estou a tirar faltas e a lançá-las no sistema informático, e a redigir cartas para os Encarregados de Educação para enviar em correio registado. Hoje almocei, dei seis blocos de aulas e tenho agora duas horas de trabalho em que ninguém me aborrece, como em qualquer profissão. É pena que seja trabalho burocrático, repetitivo, redundante e sem interesse para mim. Eu escolhi ser professor. Não o tenho conseguido ultimamente.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Segunda-Feira, 16 de Março

Nesta segunda-feira apresentei-me ao serviço às 8.15 horas, como sempre, e com a esperança sincera de não ter que escrever nada na entrada de hoje. É todos os dias a mesma coisa. Todos os dias eu desejo que seja um dia sem "casos". Não foi:

- 10.3o horas - Duas alunas entram na sala aos gritos, numa discussão do tipo Morangos com Açúcar, teatralizada até à náusea, com asneirões pelo meio. Duas faltas disciplinares, procedimentos burocráticos da praxe, e os habituais protestos de que "não estavam a fazer nada", mais as ameaças de chamar alguém do Conselho Executivo para as pôr fora da sala.

- 12.30 horas - Passo nas imediações da cantina, e na fila, um aluno do 9º ano, velho conhecido, bate com as cabeças de dois alunos do 5º ano uma contra a outra. Ria-se para as colegas de turma e afirmava estar a "descarregar o stress".

Trata-se de um aluno cujos pais vêm sempre à escola ameaçar com queixas e com tribunais todos os professores, funcionários ou alunos que reajam aos numerosos abusos que comete todos os dias e a toda a hora. É genuinamente mau. Famoso nas redondezas por alvejar gatos e cães com tiros de carabina (oferecida pelo pai especialmente para o efeito).

Uma queixa de um alunos destes implica meses de transtornos diversos, devassas da vida pessoal, ameaças anónimas, etc.. Acerco-me e pergunto o que se passa. Meio tontos, os garotos do 5º ano afirmam que estão todos "a brincar". Não adianta prosseguir. Sustentarão essa versão até ao final das suas vidas, se preciso for, para evitar serem seriamente espancados pelo Abílio, o agressor. Afasto-me, debaixo dos risos sarcásticos dos meninos e das meninas da turma do "herói".

- 13.o5 horas - Uma rapariga que coxeia e tem uma acentuada deficiência numa perna, passa nas escadas e um aluno do CEF (Cursos de Educação e Formação), com ar mais boçal que se possa imaginar, dispara:

- Hã... hã... cande é que quemeças á andar como deva ser?...

Fico aturdido, incrédulo, e escapa-se-me:

- Desgraçado!

- Qué que foi? - responde o aluno do CEF, com toda a insolência.

- Então tu estás a fazer troça de uma rapariga deficiente? - digo eu.

Resposta dele:

- Eu não lhe chamei deficiente. Só disse cando é quela quemeçava á andar como deva ser!

Não vale a pena apresentar queixa. Por estranho que possa parecer, o "argumento" dele ganhava, no actual estado de loucura que tomou conta das escolas.

- 14.45 horas - Alunos de uma turma CEF que foram expulsos de uma aula, correm pelos corredores, empoleiram-se nos muretes e pontapeiam as portas das salas. As funcionárias procuram correr em sentido contrário, por forma a não poderem testemunhar nada nem intervir. Alguns professores, timidamente, assomam às portas. Sabem que nada podem fazer sem correrem riscos sérios de agressão e outras represálias. Procuro conter-me.

- 14.55 horas - O barulho, as correrias, as patadas nas portas, as pancadas nos vidros, continuam. Saio da sala e peço a caderneta do aluno a dois dos "foliões". Um deles sai-se de pronto com o clássico:

- "Eu não fiz nada!". E ri-se, com ar de gozo.

Passam-me coisas pela vista, as pernas fraquejam, sinto um nó no estômago e tonturas. peço na lata de Coca-Cola que ele tem na mão, esmago-a com a minha mão, e peço-lhe de novo a caderneta.
São quatro cadernetas a preencher. Mais uma quantidade de burocracia.

- Volto à sala de aula, estou no meio de uma explicação particularmente complexa, e uma aluna resolve levantar-se para me perguntar se vi o estojo dela (!!!). Continuo a falar e ela a perguntar, ininterruptamente. Chega-se ao pé de mim e no meio da explicação só digo: "Por amor de Deus, vai-te sentar". A aluna continua a matraquear, quase em cima de mim: "Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa?".

Mais uma falta disciplinar. Os alunos resmungam que é uma "injustiça". Apetece-me sair da sala imediatamente e ir para casa. A muito custo, contenho-me. Sinto que me vai rebentar qualquer coisa na cabeça.

- 16.45 horas - O funcionário pede a minha ajuda para desalojar três rapazes, um do CEF e dois do 5º ano (!!!), que sequestraram três raparigas nas casas de banho femininas. As raparigas gritam que se desunham, mas quando chegamos à porta, saem com ar de quem acaba de descer da montanha russa. Eles recusam-se a acompanhar-nos à Gestão. Não podemos tocar-lhes, ou seremos acusados imediatamente de agressão. Mais papéis, relatórios, participações, cartas registadas, entrevistas, acariações.

A Psicóloga da escola está no Gabinete do Executivo, quando vou entregar a papelada. Acusa-nos de não sabermos lidar com os miúdos, que "têm muitos problemas em casa".

Tenho 50 anos. Não é fácil mudar de emprego nesta idade.

Hoje "almocei" e "lanchei" Actimel. Não dei propriamente aulas. Mantive animais selvagens dentro de uma sala, em cativeiro.

Post-Scriptum: Já estou em casa. São 20.20 horas. Entrei às 8.15 e tenho ainda um serão de testes e trabalhos para ver, mais as burocracias de actas e outras. Uma vista de olhos pelas notícias do Público, e verifico que uma aluna CEF agrediu violentamente uma professora em Aveiro. Medina Carreira terá dito que as escolas actualmente são uma bandalheira. Eu acrescento que são um inferno.

Sexta-Feira 13



Nesta sexta-feira dia 13 de Março de 2009 pensei que seria uma experiência interessante registar o que me acontece num dia ou numa semana de trabalho típica. Devo dizer que a minha profissão é a de professor, pelo que, nos tempos que correm, sou um alvo a abater. Adiante.

Nesta sexta-feira, as principais ocorrências de carácter disciplinar (que é como se chama modernamente à má educação, marginalidade e brutalidade), foram as seguintes:

- 8.00 horas - O aluno Raimundo da turma especial do 6º ano espancou o aluno Eduardo, da minha Direcção de Turma, a 2 metros do portão da escola. Sem qualquer motivo. Apeteceu-lhe.

- 12.30 horas - O aluno Raimundo da turma especial do 6º ano, na cantina da escola, entornou alguma água no seu tabuleiro, e exigiu que o aluno Hermínio, da minha Direcção de Turma, limpasse a água com um guardanapo. Como este se tivesse negado, regou-lhe a comida toda com o conteúdo inteiro de uma garrafa de litro e meio de água. A comida ficou impossível de ser consumida, pelo que o almoço do aluno foi meio papo-seco oferecido por outro aluno.


- 14.30 horas - Tive conhecimento do sucedido, redigi as participações disciplinares e procurei o aluno Raimundo, que tem 17 anos, anda no 6º ano, mede 1.80m e desde que entra até que sai da escola tudo o que faz é agredir, insultar, ameaçar e destruir.

Perguntei-lhe o que se tinha passado.

Respondeu-me:


"Bati no Eduardo do portão para fora, por isso você não tem nada a ver com isso, e aquilo da água na comida do Hermínio é mentira".

Avisei-o para que não tocasse mais nos meus alunos. Riu-se e disse:

- "É só se não me apetecer".

Redigi nova participação disciplinar. Será mais uma para o monte. Inútil.

- 15.25 horas - Na fila para o bar, o aluno da minha Direcção de Turma Carlos Daniel, foi espancado por um aluno dos Cursos de Educação e Formação, de nome Fábio, sem qualquer motivo. Apenas por desfastio. Nova participação disciplinar, relatório, recado nas cadernetas, cópias para o Director de Turma do agressor, para o Conselho Executivo, para o meu dossier, cartas registadas.

- 16.00 horas - A minha aula é interrompida por uma gritaria enorme. Ouço uma mulher a chorar. Ao lado de um cacifo destruído, o aluno que agredira os meus dois, de manhã, ria-se na cara da funcionária, que entrara em desespero por ele estar a destruir o cacifo e não lhe obedecer. A funcionária chorava convulsivamente, na medida exacta em que ele a insultava, chamando-lhe um pouco de tudo o que se possa imaginar. Chamei o vice-presidente, que pediu ao aluno para o acompanhar. O Raimundo afirma peremptoriamente que não fez nada (!!!).

Chama-se mentiroso. Diz que me f*** os cornos à saída.

- 16.30 horas - O aluno Fábio (o da agressão ao Carlos Daniel) é expulso da sala de aula contígua. Recusa-se a sair. A professora pede ajuda e as funcionárias fogem. Naturalmente, acudo. O indivíduo, refastelado numa mesa e a rir-se às gargalhadas, galvaniza toda a turma numa espécie de delírio colectivo. É o caos. Peço licença à colega, pego nele e ponho-o na rua.

- Você tem a mania que é esperto, qualquer dia f***-se! Sempre a meter-se onde não é chamado!...

Mais uma participação disciplinar, com todo o cortejo de procedimentos burocráticos associados, e para nada.

Entrei às 8.15 horas. Às 17.30 acabou o meu período de aulas, com 50 minutos de almoço. Dei sete blocos de aulas, no meio de indisciplina, e todos os meus intervalos, mesmo o do almoço, foram ocupados a preencher papéis referentes a estes casos mais flagrantes de indisciplina. Não têm conta os palavrões que ouvi, as gritarias nos corredores, os insultos velados ou pelas costas de modo a não se identificar quem insultou, ou não se "ter provas".

É fácil de imaginar o estado de nervos em que se trabalha. A disposição, a clareza de raciocínio, a inspiração, tudo se dissolve debaixo desta contenção forçada, deste caos, desta selva sem lei a que se está sujeito. Todos os dias.